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ARTIGOS

Apropriação Cultural no Yoga

Instrutor: Anderson Alegro

APROPRIAÇÃO CULTURAL
Li um artigo, em uma revista de Yoga americana (Yoga International), sobre a apropriação cultural feita por praticantes, donos de estúdios e instrutores de Yoga. E gostaria de saber a opinião de vocês sobre o assunto. Só para dar uma definição, apropriação cultural é quando você usa elementos de uma outra cultura que não a sua, por exemplo, turbantes, cocar de índio, mas também a religião ou aspectos culturais que não os seus.
Falar de apropriação cultural em um mundo globalizado, me parece bem inapropriado. A autora do artigo diz que o uso de estátuas de deuses e símbolos indianos para decorar sua escola de Yoga parece ser ofensivo e apropriação cultural. Principalmente porque, durante a aula de Yoga você vai acabar voltando a sola dos pés para a estátua o que, na Índia é desrespeitoso e vergonhoso. Quando visito os ashrams na Índia, sempre tomo cuidado para não apontar os pés para as imagens, para o professor ou para o Guru. E acho importante esse respeito, já que é a cultura deles. Mas quando estou na minha escola, não acho que isso seja um problema. O que é desrespeitoso para um hindu, não é para nós. Para os ocidentais, as solas dos nossos pés não são a parte mais sujas do nosso corpo. Portanto, não há a intenção de desrespeitar. Adoro os costumes indianos, mas não devemos confundir costume com filosofia. Quando coloco as estatuas e símbolos indianos na minha escola, faço com respeito mesmo que a posição delas não esteja perfeita dentro dos códices hindus. E mesmo que eu não faça a puja (oferendas) todos os dias e da forma correta, essas estátuas me lembram do quão valioso o Yoga é e de quantas vidas ele já transformou. Me inspiram a cumprir minha missão de ensinar essa filosofia da forma mais autêntica e sincera que eu puder.
A autora continua dizendo que usar o termo “Yogi” não é apropriado porque, na Índia, esse termo é um título para quem vive o estilo de vida proposto por essa filosofia. Concordo! Mas será que não é possível para um ocidental desenvolver esse estilo de vida? Ou você tem que morar nos Himalaias, sem comida, sem roupas e sem casa para ser considerado um Yogi? Tentar viver uma vida serena, simples, nutrindo pensamentos e sentimentos construtivos, cultivar o respeito pelos outros, por mais diferentes que sejam, me parece suficiente para alguém se considerar um yogi.
Usar o Om na parede ou uma frase dos Yoga Sutras na camiseta também é apropriação cultural, segundo o artigo. Mas para mim, fazer uma tatuagem com o símbolo de Shiva, usar um pingente do Om, uma japamala ou os Yoga Sutras na camiseta é uma forma de estar conectado com os princípios dessa filosofia. Se fosse apropriação cultural, minha Guru não teria me dado e abençoado minha japamala e vários pingentes com o Om e deuses indianos. Minhas camisetas com deuses e símbolos indianos foram compradas na Índia. Se fosse apropriação cultural, não deveriam ser vendidas em lojas indianas.
Gosto de celebrar alguns dos festivais indianos – Ganesha, Shiva, Diwali – e faço com todo o respeito e consideração. Não saber fazer o ritual indiano apropriado ou cantar o mantra em sânscrito com perfeição não diminui minha sinceridade. Se uma criança pede “água” para sua mãe sem pronunciar direito a palavra, a mãe vai deixar de lhe atender? Da mesma maneira, se meu sânscrito não é perfeito, minhas preces não serão ouvidas?
No final do artigo, a autora, que é indiana e mora nos Estados Unidos, parece revelar a verdadeira motivação por trás de suas palavras. Ela fala que o Yoga movimenta milhões de dólares em aulas e produtos, nos Estados Unidos, e nada desse dinheiro vai para a Índia. Além disso, os instrutores indianos não têm espaço na cena do Yoga naquele país. Ela recomenda que, para não se apropriar indevidamente da cultura do Yoga, você deve praticar com professores indianos e aprender a filosofia com eles. Concordo que é ótimo aprender com os indianos, guardiões do Yoga por milhares de anos. Mas o fato de ter nascido na Índia, é garantia de que um instrutor indiano é um bom professor de Yoga e filosofia? Não. Já conheci vários que sabiam muito menos do que eu e que respeitavam muito menos a própria cultura do que nós, os ocidentais. E muito do dinheiro que o Yoga movimenta vai para a Índia, sim. Viajamos para lá, movimentamos a economia, pagamos hotéis, compramos produtos fabricados lá, contribuímos com os ashrams e estudamos com os professores indianos. Veja bem, eu adoro a Índia e viajo para lá sempre que posso. Adoro os indianos também e, acredito, que muitos instrutores sérios não concordariam com a ideia de apropriação cultural. Portanto, não estou criticando a Índia, os indianos e, muito menos, a cultura hindu. Estou criticando esse conceito de apropriação cultural que tem ganhado força no ocidente.
Vivemos em tempos difíceis onde parece que o que você faz ou veste é muito mais importante do que o sentimento, a sinceridade e a intenção com que você faz. Desenvolver a capacidade de acolher, a flexibilidade e a tolerância são qualidades que um yogi, instrutor de Yoga ou praticante - ocidental ou indiano - não podem deixar de cultivar. Sem elas, o Yoga estará sendo indevidamente apropriado, independente da sua nacionalidade.

Compartilhe suas ideias a respeito desse artigo. Vamos refletir e crescer juntos com esse debate.

Instrutor: Anderson Allegro Anandamaya