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ARTIGOS

AS DIVERSAS GĪTĀS DA TRADIÇÃO LITERARIA INDIANA

Instrutor: Flavia Bianchini

O que nos dizem as diversas Gītās A palavra Gītā, da raiz Gai, cantado, recitado, canções de louvor, constituem partes de grandes obras, na forma de uma canção, música ou poema sagrado, através do qual as doutrinas religiosas são declaradas em forma métrica por um sábio inspirado (Monier-Williams, 1979, pág. 356). Segundo Jan Gonda, o termo Gītā pode, pelo menos originalmente, ter sido aplicados a textos que não eram recitados da maneira comum, e sim, mais ou menos cantados (Gonda, 1977, p. 271). Sendo assim, Gītā, é aquilo que é cantado ou entoado, ou seja, uma parte da literatura sagrada pode não só ser lida e recitada, mas ainda pode ser cantada de um modo especial, em determinada ocasiões ou práticas. Uma Gītā é uma canção, um poema filosófico e devocional, na forma de um diálogo entre um mestre divino e seu aluno ou discípulos. Muitos textos considerados sagrados e importantes, ainda hoje são recitados, lidos ou mesmo cantados em ocasiões específicas, durante a realização de algum ritual, dia ou cerimônia especial (Bhattacharjee, 1926, p. 538). Alguns pesquisadores, Gonda (1977), Nilkantan (1989), entre outros, consideram que a Bhagavad-Gītā foi o protótipo das demais canções, tendo servido de “modelo” aos autores das Gītās posteriores. Além das Gītās, existem os Mahātmyas, ambos são textos muito similares, e a linha que separa uma Gītā (“cântico”) de um Mahātmya (“engrandecimento”) é muito tênue. A principal diferença seria que em um Mahātmya a perspectiva é a do devoto, que ouve as grandes realizações da divindade e exalta sua divina majestade, enquanto que em uma Gītā, a perspectiva é a da divindade instruindo o discípulo. Mas o oposto também acontece em que aspectos devocionais surgem em algunas Gītās e instruções espirituais surgem em alguns Mahātmyas (Brown, 1999, p. 9; Brown, 1992, p. 180). De um modo abrangente, as Gītās apresentam algumas características comuns, Cheever Mackenzie afirma que, sendo um discurso típico e didático, as Gītās abordam os seguintes tópicos inter-relacionados: 1) A natureza do divino, incluindo suas formas superiores e inferiores e várias manifestações sobrenaturais (vibhūtis); 2) a natureza e a gênese do mundo explicadas em termos de um Sāṃkhya teísta; 3) a natureza do Ātman e da alma individual (jīva); 4) as funções cósmicas do Supremo: criação, proteção (especialmente manifesto na doutrina avatāra), e destruição; 5) os vários caminhos ou yogas que levam ao supremo como karma, bhakti, jñana, cada um, muitas vezes sendo analisados em diversos tipos de acordo com os guṇas; e 6) os ideais de varṇāśrama-dharma (Brown, 1992, p. 181). De acordo com Gonda, as Gītās visam transmitir uma sabedoria mais ou menos exotérica, hermética, que é tecida na narrativa de fundo de um discurso entre um preceptor divino e seu proeminente devoto que, estando em uma situação difícil, procura por ajuda e intervenção divina (Gonda, 1977, p. 272). Tal sabedoria divina, e revelação das doutrinas, vão sendo transmitidas ao longo do texto por meio de estágios sucessivos ao longo de perguntas e respostas num intrincado diálogo que se estabelece entre os personagens princípais. Essa cena mítica acontece em muitas outras obras, sendo usual em Purāṇas, Agamas, etc. Por meio destas cenas são transmitidos os ensinamentos que conduzem para a libertação final, no qual ocorre a revelação da mais elevada Consciência; onde são transmitidas as injunções para amar e servir a Deidade; os meios de sua adoração; repetição dos nomes divinos; muitas vezes uma das princípais divindades hindus é apresentada como o mestre da doutrina, como sendo a Realida Última – Brahman, que assim revela seu culto e sistemas de adoração. Em muitas Gītās existe uma relação estreita e clara com a doutrina da unicidade de tudo em Brahman como o princípio supremo (brahmavidyā) das Upaniṣads. Seus autores se esforçaram por mostrar que a divindade de sua escolha é idêntica à Brahman, adotando arguntos, ensinamentos e procedimento das Upaniṣads pelos quais foram influenciados, reproduzindo deste modo, nas Gītās, ṣlokas citação ou paráfrase, ou mesmo algumas histórias e exemplos contidos em antigas Upaniṣads (Gonda, 1977, p. 272). Neste sentido, Gonda aponta para dois aspectos diferentes, enquanto que muitas Gītās utilizam passagens das Upaniṣads para explicar o conhecimento de Brahman – brahmavidyā, outras, no entanto, exploram tais conceitos para propagar uma forma particular de adoração divina, dentro de um contexto sectário (idem, 1977, p. 276). Muitas Gītās falam sobre os lugares sagrados, especialmente lugares de peregrinação (tīrtha), e de peregrinações a locais que gozam de certa santidade (idem, 1977, p. 276). Emboras te um modo geral, todas as Gītās possuam um caráter didático, com claro objetivo de transmitir algum ensinamento em particular, os assuntos são os mais diversos, não possuindo uma temática fixa. Gītās do Mahabhārata, dos Purāṇas e de Outras Fontes Bhattacharjee considera/supõe que todas as Gītās são interpolações nos livros onde são encontradas e que de um modo geral refletem o mesmo ponto de vista mental e intelectual, resultantes de um mesmo período histórico e de um mesmo estágio intelectual, ou seja, que tais textos traduzem o espirito de uma época (Bhattacharjee, 1926, p. 538). Além da Bhagavad-Gītā, existem mais 15 Gītās no Mahabhārata, mais de 20 Gītās nos Purāṇas, e várias outras Gītās que são considerados textos independentes. Uma análise das princípais Gītās é realizada por Jan Gonda (Gonda, 1977, p. 273-277), Ratnam Nilkantan (1989), Umesh Chandra Bhattacharjee (Bhattacharjee, 1926) e Parameshwara Aiyar (Aiyar, 2007). Vamos analisar então, as principais características destes grupos de textos, apontando principalmento paras os aspectos que mostram as diferenças existentes entre estes três grupos, e que permitiu essa divisão. No Mahabhārata (Bhattacharjee, 1926, p. 537; Aiyar, 2007, p. 204), há outras Gītās, a saber: Uthatya Gītā, Vāmadeva Gītā, Ṛṣabha Gītā, Ṣaḍaja Gītā, Śampāka Gītā, Maṅki Gītā, Bodhya Gītā, Vicakhnu Gītā, Hārita Gītā, Vṛtra Gītā, Parāśara Gītā, Haṃsa Gītā, Anu Gītā, Brāhmaṇa Gītā, e Brahma Gītā. Muitas Gītās do Mahabhārata não chamam a sí mesmas de Gītā, algumas utilizam no título ākhyāna, upākhyāna ou saṃvāda; outras a princípio não possuíam a palavra Gītā como título, embora a palavra apareça internamente no texto dentro de algum capítulo; o que levou Nilkantan a concluir que durante o tempo de composição das primeiras canções do Mahabhārata, ainda não havia critérios definidos acerca desta classe de composição de textos (Nilkantan, 1989, p. 21-22). Nos Purāṇas (Bhattacharjee, 1926, p. 537; Aiyar, 2007, p. 204), podemos encontrar uma extensa lista de outros Gītās: Īṣvara Gītā e o Vyāsa Gītā do Kūrma-Purāṇa; Yama Gītā do Viṣṇu-Purāṇa, Yama Gītā do Nṛsiṃha-Purāṇa, Yama Gītā do Agni-Purāṇa; Haṃsa Gītā e Bhikṣu Gītā do Bhāgavata-Purāṇa; Pitṛ Gītā, Agastya Gītā e Rudra Gītā do Vahāra-Purāṇa; Brahma Gītā do Yoga-vāśiṣṭha; Brahma Gītā e Sūta Gītā do Skanda-Purāṇa; Avadhūta Gītā e Kapila Gītā do Srimad-bhāgavata-Purāṇa; Gaṇeśa Gītā do Gaṇeśa-Purāṇa; Devī Gītā do Devī-bhāgavata-Purāṇa; Kapila Gītā do Padma-Purāṇa. Dentre as Gītās dos Purāṇas, a Yama Gītā do Viṣṇu-Purāṇa é considerada a mais antiga (Nilkantan, 1989, p. 13). Existem Gītās não localizadas por Bhattacharjee, tais como, duas Rama Gītā, Aṣṭāvakra Gītā, Śiva Gītā, duas Avadhūta Gītā, Pāṇḍava Gītā, Sūryya Gītā, e duas outras Gītās, a Uttara Gītā e a Vāśiṣṭha Gītā (Bhattacharjee, 1926, p. 537). Alguns destes textos são considerados indepentes e não estando associados aos Purāṇas. O Śiva Gītā é comumente associado ao Padma-Purāṇa, ele existe, mas não é encontrado dentro do Purāṇa em questão, no entanto, o seu conteúdo e os personagens presentes no texto são os mesmo contidos no texto do Purāṇa, e em função disso é dito ser parte do Padma-Purāṇa (Nilkantan, 1989, p. 17). O Devī Gītā do Devī-bhāgavata-Purāṇa faz parte de um conjunto de Śākta Gītās, sendo devedor dos que lhe são anteriores na medida em que aborda temas semelhantes, retoma sua configuração mítica, enfatiza a manifestação graciosa da Deusa, aborda temas em torno de seu nascimento nas famílias de Dakṣa e de Himālaya, na forma Gaurī ou Pārvatī. Os dois Śākta Gītās mais relevantes são o Devī Māhātmya ou Kūrma Devī Gītā, que faz parte do Kūrma Purāṇa; e o Pārvatī Gītā, do Mahābhāgavata Purāṇa.O Devī Māhātmya ou Kūrma Devī Gītā é constituído pelos capítulos 11, 12 e 13, livro I, do Kūrma Purāṇa (Tagare, 1981, p. 84-126). As denominações Īśvara Gītā, Hari Gītā e Vyāsa Gītā, em outros contextos muitas vezes aparecem como formas de se referir a Bhagavad Gītā. No título destas obras, em adição ao nome Gītā, encontramos uma primeira palavra ou nome. Esta primeira palavra nos diz muito sobre a obra, pois nos indica que o texto foi cantado ou revelado como uma mensagem pela divindade cujo nome constitui a primeira parte do nome do livro; nos indical qual é a divindade cujo louvor é cantado no livro; que a Gītā em cada caso professa ter saído da boca de alguma divindade, neste sentido o texto mostra claramente que o culto da deidade em questão estava sendo pregado no contexto sectário. Com raras exceções, é que encontramos nomes de Gītās em que essa associação não se confirma, como por exemplo, Pānḍava Gītā, que fala sobre o culto de Kṛṣṇa, e a Haṃsa Gītā texto no qual o interlocutor principal é Prajāpati, e este é quem transmite a verdades divinas desta canção (Bhattacharjee, 1926, p. 540, p. 543). A concepção de Unidade e Realidade Última – Brahman, também está presente na literatura Gītā, e o mesmo contexto sectário que permeia outras obras indianas se faz presente também aqui, onde os autores proclamam a existência dessa Realidade e a associam a sua deidade escolhida, e assim na Gaṇeśa Gītā, Gaṇeśa é identificado com Brahman, na Devī Gītā é a Deusa – Devī, na Śiva Gītā é Śiva, e assim por diante (idem, 1926, p. 540). Para ler o texto completo acesse o seguinte link: https://tinyurl.com/y3xz3wt3

Instrutor: Flavia Bianchini