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ARTIGOS

Brahman é Ānanda

Instrutor: Flavia Bianchini

Essas são duas concepções espirituais discutidas nas Upanishads – uma coletanea de escrituras indianas – também chamadas coletivamente de Vedanta ou o fim do Veda, uma denominação que sugere que elas contêm a essência dos ensinamentos vêdicos (Radakrishnam, 1989, vol. 1, pág. 137). Veremos adiante, no texto, estas informações de modo mais sistematizado. Algumas das Upanishads afirmam que Brahman é Sat-Chit-Ānanda (Verdade Absoluta, Conhecimento ou Consciência Absoluta, Felicidade ou Bem-Aventurança Absoluta). Não pretendo analisar Brahman em relação à sua manifestação enquanto Sat ou Chit – Vedade e Consciência – sendo o presente texto uma analise de Ānanda enquanto Felicidade Pura, como atributo de Brahman e como essência do próprio Brahman; e é assim que constataremos a relação Brahman-Ānanda em várias passagens de algumas Upanishads deste conjunto de textos. Partindo da obra The Philosophy of the Upanishads de Paul Deussen (1966) e também buscando indicações na obra de Colonel Jacob, A concordance to the principal Upanisads and Bhagavadgita (Jacob, 1999), foi possível localizar as principais Upanishads que tratam do tema, como veremos no ao longo do desenvolvimento deste texto. O conceito de Ānanda A palavra Ānanda, no dicionário sânscrito-inglês de Monier-Williams, possui os seguintes significados: alegria, felicidade, prazer, prazer sensual, felicidade pura, sendo um dos três atributos de Brahman segundo a Filosofia Vedanta (Monier-Williams, 1979, pág. 139). No ocidente é comum traduzir Ānanda por Bem-Aventurança ou Beatidude. Em algumas traduções de Upanishads para o inglês e para o português é comum encontrar essa designação, que será utilizada aqui. A etimologia da palavra Ānanda não é muito clara: Ela [Ānanda] não é, como poderia parecer à primeira vista, um derivativo nominal da raiz nand com o prefixo ā; o verbo ānandate só é registrado muito mais tarde. Em vez disso deve ser considerada como um substantivo verbal nanda com o prefixo ā, e deste modo pertence a um grande grupo que muitas vezes é ignorado: ā, indica o lugar onde a ação verbal acontece [...] A palavra Ānanda, deste modo, implica um lugar: aquilo em que se encontra Bem-Aventurança, seja ele um filho, a realização de um desejo, o conhecimento de Brahman; [...] Ānanda, então não é apenas uma felicidade indistinta flutuando livremente ou qualquer um estado de Bem-Aventurança, ela tem um objeto implícito. (Buitenem, 1979, pág. 32) Patrick Olivelle, em seu artigo sobre a história semântica da palavra Ānanda, inicia seu texto descrevendo: Ānanda é um dos termos mais comuns no vocábulário religioso das tradições Brahmânica e Hindu, tanto no sânscrito quanto no vernáculo, tanto nas tradições de inclinação monística, como no Advaita Vedanta, quanto nas tradições Bhakti. O termo sinaliza o intenso sentimento de alegria das experiências dos devotos em sua devoção amorosa e serviço a Deus, e nos místicos, em seu transe meditativo ou Samadhi. Dentro do Advaita e tradições relacionadas, ele representa um “atributo” central e essencial de Brahman. [...] Em muitas das tradições religiosas indianas, Moksha, a meta final da existência humana, foi definida como Ānanda. (Olivelle, 2008, pág. 75) Segundo a pesquisa de Olivelle, ocorreu uma evolução da utilização e significação dada à palavra Ānanda ao longo da literatura Vêdica. Inicialmente, aparece raramente nos Vedas; tanto no Rig Veda quanto no Atharva Veda, a palavra Ānanda surge associada à experiência espiritual do ritual do Soma e também associada à sexualidade, fertilidade, prazer sexual, orgasmo, união, prazer dos Devas (deuses), prazer relacionado aos objetos, ao corpo, aos órgãos e as suas respectivas atividades. Posteriormente, no Yajur Veda e em algumas das primeiras Upanishads, atribui-se a Ānanda, além das últimas designações, novas significações, aparecendo nesta fase associada aos Devas, ao conhecimento e ao Ātman (o Eu mais interno). O maior desenvolvimento semântico e também do vocabulário teológico da palavra Ānanda se dá nas Upanishads mais recentes, com o Vedanta em sua fase mais desenvolvida, onde aparece associada diretamente a Brahman e ao êxtase supremo. Ānanda ou prazer é a mais elevada fruição, onde o conhecedor, o conhecido e o conhecimento se tornam um. Aqui a busca filosófica termina, a sugestão é que não há nada mais elevado do que Ānanda. Este Ānanda é um desfrute ativo, ou livre exercício de capacidade. Não é afundar na inexistência, mas a perfeição do ser. (Radhakrishnan, 2006, pág. 165) Um pesquisador importante nesta presente análise é J. van Buitenen, que também estudou o percurso da palavra Ānanda na literatura Vêdica, enfocando principalmente seu sentido de prazer. Para Buitenen, a palavra Ānanda no Vedas indica “alegria, prazer e arrebatamento” nos rituais do Soma; também denota grandeza, vastidão, exuberância, deleite após a ingestão do Soma. Ele também associa Ānanda à Alma, à união com Ātman e Brahman. Indica uma passagem do Rig Veda (IX.113.11) que afirma que obter todos os desejos (=Ānanda) é condição para a imortalidade. Também aponta passagens em outros textos e Upanishads em que Ānanda está associado à geração, procriação, união, união sexual, alegria elevada e felicidade pura (Buitenen, 1979). Para continuar lendo este capítulo de livro acesse o seguinte link: https://tinyurl.com/y6ojm6et

Instrutor: Flavia Bianchini