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ARTIGOS

" FORMAÇÕES DE YOGA ou Venda de certificados?" - por Lygia Lima, em Rishikesh, Índia- 31 março 2019

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Ser professora de Yoga foi algo que aconteceu em minha vida inesperadamente. Nunca planejei ou sonhei dar aulas de Yoga. No momento em que isso aconteceu, era mais provável que fosse professora de dança, porque já o tinha sido no Rio de Janeiro antes de ir morar em Nova York.

 

Comecei a praticar Yoga aos 17 anos de idade, numa fase hippie onde eu queria me tornar vegetariana. Aos 20 anos fui morar em Nova York para estudar dança moderna. Logo que cheguei, conheci a Sharon Gannon do Jivamukti Yoga School, que estava abrindo uma nova locação do seu estúdio juntamente com seu parceiro David Life, e ambos buscavam pessoas para trabalhar no espaço deles em troca de aulas. Assim, comecei a praticar com eles diariamente e fazia o que era necessário no estúdio. Ao mesmo tempo, fazia as aulas de dança e teatro, trabalhava em restaurantes, como baby sitter e cattering - o que pagava as minhas contas.

 

Depois de 3 anos, vivemos o momento já do “boom” do Yoga nos Estados Unidos; tínhamos 50 pessoas na maioria das aulas. Um dia a Sharon me perguntou se eu não queria substituir suas aulas enquanto eles iriam pra Índia. Ela disse: “Amanhã você dará minha aula; eu e David vamos fazer a sua aula e conversamos depois.” “Wow” - pensei; fui promovida de faxineira à professora!

 

Depois da aula, ela me deu uma lista de livros para ler que incluía as escrituras mais importantes do Hatha Yoga: Hatha Yoga Pradipka, Bhagavad Gita, Yoga Sutras de Patanjali, (que confesso que só muito tempo depois pude começar a estudar) e então David disse: “Breath” (Respire).  Partiram para a Índia e 2 semanas depois eu estava dando 20 aulas por semana; era verão e todos os professores queriam sair de férias e comecei a substituir todos, em academias, outros estúdios, corporações, aulas particulares etc. Essa oportunidade mudou a minha vida para sempre.

 

Durante muitos anos, não tive tempo de investir na minha vida profissional em termos de fazer uma formação ”formal” de Yoga; era um investimento de tempo e de dinheiro. Fazia cursos sempre que podia e o Jivamukti foi uma escola incrível; fomos expostos a todos os tipos e estilos de Yoga: Kundalini Yoga, Iyengar, fui Ashtangi tradicional por 10 anos… Isso tudo antes deles formarem o método Jivamukti Yoga.

 

De volta ao Brasil, vi vários professores da minha geração, que saíram e voltaram, começarem a dar formações, e eu nunca me achei apta ou no direito de formar professores; como eu poderia? Eu limpava banheiros!

Apesar de toda a experiência acumulada nos meus anos de prática e estudo, não o fiz. Somente há quase 3 anos tive a oportunidade de fazer uma formação com registro internacional e comecei a trilhar o caminho de facilitar formações de Yoga; mais de 20 anos depois.

 

Entrei nesse processo porque vários alunos e professores amigos me pediam e me perguntavam por isso. Mas, o que me motivou realmente, foi o projeto social  “Guerreiros da Paz”, que criei  com 2 amigos na Cidade do México, com a intenção de formar adolescentes em orfanatos e prisões.

 

Foi um processo difícil, confesso. Lidei com meus medos e inseguranças, mas encarei a responsabilidade com a intenção de fazer diferente, de aportar critérios e com o compromisso de passar a conexão e o respeito com a tradição dessa filosofia prática de vida que tanto reverencio e que tanto me proporciona.

 

O Yoga hoje no mundo cresceu de uma forma impressionante comparado há 25 anos, o que é muito bom. Muito importante as pessoas estarem se trabalhando, se autoconhecendo, tendo melhor qualidade de vida, melhores relacionamentos, estarem mais conscientes. Sabemos bem que os benefícios da prática são infindáveis e precisamos de mais e mais praticantes e professores para fazer as mudanças necessárias no mundo.

Mas, como tudo, sempre temos a luz e a sombra; a dualidade é inevitável.

 

A sombra ao meu ver, é que há um mercado por detrás que visa somente o aspecto financeiro: é só abrir a revista Yoga Journal dos Estados Unidos e ver um anúncio de um carro “Nissan” com uma mulher encima do carro em postura de meditação ou o anúncio de um vinho chamado “It’s Yoga”; uma exploração capitalista sem fim.

 

As formações de Yoga entram também nessa exploração e o mais incrível é que chegou até a Índia. Em Rishikesh, considerada a capital do Yoga, tem mais ashrams facilitando formações do que qualquer estúdio no Ocidente. Aqui as formações começam a cada dia 1o do mês, ou seja 12 por ano! O valor é a metade do que se oferece nos Estados Unidos ou Europa. Assim, todos preferem fazer a formação aqui, já que afinal é a Índia, o berço do Yoga, mas não necessariamente com qualidade e critérios.

 

Nas últimas formações que dei ano passado, no México e em São Paulo, tive problemas básicos com os alunos: falta de disciplina, falta de compromisso com o estudo, falta de pontualidade e respeito com o professor, a negativa em querer fazer as tarefas... E o mais interessante é que tinham várias pessoas querendo mudar suas vidas e carreiras: médicos, dentistas, psicólogos etc, mas poucos interessados em fazer o trabalho que tem que ser feito para ter “outra carreira.”

 

Quando pedi aos alunos para deixarem seus telefones em modo avião, e que todos teriam que fazer suas anotações escritas, ou seja, nada seria feito pelo telefone ou tablet, foi uma comoção generalizada.

 

Infelizmente, com a mídia social, o vício e apego aos telefones celulares é enorme.  Não conseguimos mais ficar algumas horas sem checar mensagens, ou sem tirar  selfies e fotos em posturas de Yoga. Perdemos tanto da vida, do que está acontecendo no momento presente, e isso é como se fosse a representação do que é Yoga.

 

Fiquei impressionada com a reação de todos e o quanto estamos imediatistas, querendo fórmulas prontas, sequências fixas, e o quanto nos custa pensar, analisar, ler, contemplar, meditar; o nível despam de atenção é somente para o título da matéria.

 

 O Yoga não é só mais “outra carreira”, mas um caminho espiritual, de prática, estudo e auto estudo diários e  constantes. A prática não é só no tapetinho de Yoga durante 1 hora e meia, 3 vezes por semana, mas 24 horas por dia, 7 dias por semana e 365 dias no ano.

 

A congruência, a ética e o alinhamento que praticamos primeiro no corpo físico é para depois serem traduzidos no dia a dia, em nossas vidas: o que pensamos, o que sentimos, o que falamos e fazemos deve estar em harmonia e equilíbrio; isso é a verdadeira prática!

 

Para sermos um bom professor de Yoga temos que ser primeiro um bom aluno. Isso requer esforço, dedicação e tempo. Em sânscrito a palavra TAPAS expressa o desejo ardente para conquistar nossas intenções. SWADHYAYA, o estudo necessário para o autoconhecimento, o olhar interno através da autoanálise e a contemplação das escrituras sagradas. Isso tudo é trabalho fundamental de um yogi em formação.

 

O que me deparei foi a dura realidade do quanto, hoje em dia, poucas formações exigem dos alunos essa disciplina. A maioria hoje, por todos os lados, está “vendendo” certificados de Yoga, sem exigências de tempo de prática prévia (ou seja, uma pessoa que nunca fez Yoga na vida e depois de uma semana praticando se apaixona pela prática, paga por uma formação e sai “apto” a dar aulas depois de 200 horas.)

 

Podemos oferecer aos alunos as formações como um curso de aprofundamento, uma imersão, mas isso tem que ser claro desde o começo, para não haver dúvidas ao final do processo. E é claro que tarefas, leitura, o desenvolvimento da prática pessoal de ásana e meditação são tão importantes quanto uma avaliação final de conhecimento para a demonstração do que foi aprendido e absorvido no processo.

 

Como tudo na vida, Yoga é uma experiência direta, os anos de prática são fundamentais para passarmos a essência do Yoga e aprofundar seus valores (Yamas e Niyamas) em nossas vidas, senão, que qualidade de professores estamos colocando no mercado?

 

Nosso compromisso como guias e formadores é “walk the talk”: temos que praticar o que estamos vendendo. A sabedoria leva tempo, vem com erros e acertos e a continuidade da auto observação, o trabalho constante em si mesmo, de querer se ver, de encarar e abraçar a nossa sombra.

 

É fundamental a meditação no silêncio, a prática pessoal solitária, a introspecção, lidar com as nossas resistências e superá-las, ouvir nosso guia interno (e não somente praticar com outros nos guiando).  O que buscamos não está fora em nenhum outro ser humano, em nenhuma situação externa e impermanente, mas na nossa capacidade de abraçar o caminho do Yoga como uma viagem espiritual, individual, pessoal, de autoconhecimento e, durante o processo, nos lembrar que já somos a felicidade que buscamos.