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ARTIGOS

Yoga como tratamento complementar para pacientes com Artrite Reumatóide

Instrutor: Renata Lima da Costa

A Artrite reumatoide (AR) é uma doença autoimune, inflamatória, sistêmica e crônica. Sem tratamento adequado, o curso da doença é progressivo, determinando a perda de capacidade funcional, podendo haver redução da expectativa de vida, o que demonstra a gravidade da doença. Mesmo quando a inflamação nas articulações está controlada com medicamentos, alguns pacientes apresentam incapacidade funcional, necessitando de esforços complementares em seu tratamento. Essas terapias complementarem incluem dietas, meditação, yoga, acupuntura, entre outras.

O yoga é uma atividade física de popularidade crescente e possui diversos estilos, cada um com suas especificidades, sendo indicada ou não para se atingir determinado objetivo. Alguns estilos são apropriados para a maioria dos pacientes reumáticos, em qualquer idade, enquanto outros estilos são contraindicados para pacientes que já apresentam limitação de movimentos e dor crônica. Por exemplo, o Bikram yoga não é recomendado para pessoas com problemas cardíacos; o ashtanga não é indicado para pacientes mais velhos ou sedentários; o Vinyasa, mesmo com uso de props, apresenta grande barreira para pacientes sem condicionamento físico ou fadiga; por outro lado, a yoga restaurativa, que foca no suporte completo com uso de props e mínimo esforço físico, é mais apropriado para os dias de intensa fadiga.

O yoga presenta uma obordagem diferente da abordagem apresentada em exercícios ou terapias físicas, pois considera componentes físicos e mentais, incorporando aspectos espirituais, que têm a pretenção de conferir benefícios específicos, incluindo o aumento da aceitação da condição e atenção plena. Tal aceitação é particularmente importante no que diz respeito a qualidade de vida de pacientes com doenças crônicas. Já atenção plena é um termo atribuído à atenção no momento presente. Acredita-se que atenção plena ajuda no humor, na redução do estresse, da ansiedade, da incapacidade e da dor.
Como terapia, o yoga é um sistema designado ao refinamento da fisiologia humana. Os ásanas agem sobre as glândulas e órgãos internos, realinham a estrutura musculoesquelética e afrouxa as articulações rígidas.

O yoga proporciona uma abordagem holística, compreendendo uma gama de práticas físicas, respiratórias e de relaxamento e, por isso, é oferecida como fonte de benefícios físicos e psicosociais, e é considerada por muitos praticantes como uma forma de manutenção da saúde em geral. Além disso, a prática possibilita o desenvolvimento individualizado de habilidades que auxiliam o gerenciamento da artrite reumatóide. Interessante notar que, no oriente, onde as posturas de yoga são usadas instintivamente pela população nativa, os problemas musculoesqueléticos, como dores nas costas e rigidez articular por exemplo, têm baixa prevalência.É possível que o principal impacto do yoga seja o sentimento de bem estar, e não o funcionamento biológico (fisiologia). Porém, ainda são necessários estudos mais prolongados para definir como a fisiologia humana é afetada pela prática de yoga.

A meditação, uma das práticas compreendidas no yoga, é associada ao aumento acentuado de melatonina, que é o hormônio que regula o sono e fortalece o sistema imunológico, e de ß-endorfina, um neurotransmissos relacionado a diminuição da sensação dolorosa, facilitando a sensação de relaxamento e bem estar, além de estimular o sistema imunológico. Outra evidência de que o yoga esteja relacionado com bem estar, redução do estresse e da dor nas síndromes autoimunes é que, assim como a massagem, ele estimula receptores sob a pele, levando a um aumento da atividade vagal, reduzindo o cortisol, que é um hormônio relacionado ao estresse e a inflamações.

A maneira como respiramos desencadeia vibrações energéticas que influenciam nosso bem estar. Assim, a forma como praticamos os pranayamas (exercícios respiratórios) e os ásanas (posturas corporais) tem importante papel fisiológico, beneficiando o sistema musculoesquelético, o sistema cardiopulmonar, o sistema nervoso e o sistema endócrino. A respiração yogui realizada durante as práticas de ásanas, especialmente em posturas de relaxamento, mostram resultados na reversão dos efeitos fisiológicos do estresse. Ainda, após a pratica de yoga, indivíduos com estresse pós-traumático devido a calamidades naturais, guerras ou violência apresentam redução de estresse.

O yoga também atua de forma direta nas articulações, alterando as funções articulares, já que ações mecânicas podem ter efeitos fisiológicos no nível celular, e a mobilização de articulações preserva a cartilagem perdida por imobilização. O yoga fornece uma estratégia de enfrentamento da doença baseada em habilidades (consciência corporal, relaxamento...), que contribui para o senso de confiança e auto-eficácia, abalados pela AR. As posturas mostram um meio para assumir o comando do corpo e determinar o modo como se sentem. Mas a prática de yoga não é livre de riscos. Se for feita de forma incorreta, sem preparação, alguns ásanas podem trazer mais malefícios do que benefícios. Para evitar o abuso e preservar as articulações, a prática de yoga deve promover mobilização e força nas articulações. Alguns médicos acreditam, inclusive, que a prática de yoga com ênfase em transição de ásanas e em flexibilidade pode forçar as articulações vulneráveis, já afetadas pela doença. O alongamento muscular, ferramenta importante do yoga, produz uma elevada pressão interna nas células musculares e, como resultado, aumenta a eliminação de toxinas de dentro dessas células, o que é fundamental para o paciente com doenças cônicas inflamatórias. Além do alongamento muscular, a pratica de kryias (limpeza física do corpo) também tem esse papel: eliminação de toxinas, além de outras secreções (catarro, muco...), reduzindo o volume de material infectado e intensidade de infecção.

O Iyengar yoga pode ser considerado uma boa abordagem complementar para pacientes com AR. A ênfase dada ao alinhamento protege as articulações e não irrita as já inflamadas. O uso de props de sustentação reduz a tensão e o estresse, de forma a reduzir a inflamação. O foco no alinhamento, na respiração, e a consciência da pressão, tensão e a sensação corporal confere beneficios meditativos adicionais. Nesse estilo de yoga as posturas são desenhadas para aumentar a força e a mobilidade das articulações e músculos, e podem ser individualizadas para as condições e necessidades de cada paciente.Outra característica desse estilo é que ele emprega sequências terapêuticas para pacientes em determinada condição médica, usando props e focando no alinhamento individual. Pacientes com fadiga, movimentação limitada e articulações doloridas podem praticar as posturas usando props de suporte (blocos, bolsters, cadeiras...) que possibilitam manter a postura sem estresse do corpo.

A prática de yoganidra, que pertence ao método de Raja Yoga, pode aliviar dores ao estimular a glândula pituitária a liberar endorfinas e encefalinas, que são neurotransmissores narcóticos, além de reduzir o inchaço das articulações.

O hatha yoga se baseia no conhecimento, desenvolvimento e equilíbrio de energias psicofísicas no corpo, e pode, dessa forma, ser referenciada como yoga psicofísica. Tal estilo usa o alongamento, através da manutenção estática das posturas físicas (ásanas), e melhora a força e flexibilidade muscular tanto que pode ser usado para melhorar alguns problemas musculoesqueléticos, como dores nas costas e esclerose multipla.

Quanto mais vigoroso o estilo de yoga, com movimentos dinâmicos e posturas que exijam força, como o ashtanga, por exemplo, resulta em mais benefícios físicos quando comparado aos estilos mais gentis, ricos em alongamento e meditação sentada. Porém, de acordo com alguns pesquisadores os exercícios que trazem mais benefícios são os de baixa intensidade.

A ciência moderna, o ayurveda, o yoga e a meditação, juntos, formam uma combinação que tem grande poder no tratamento dos sintomas da AR. A ciência moderna tem seu foco nos períodos de atividade da AR, o ayurveda foca na purificação do organismo, e o yoga e a meditação focam, juntos, na mente e no corpo do paciente.

De qualquer maneira, o yoga se mostrou eficaz no tratamento coadjuvante de pacientes com AR, possibilitando, inclusive, que alguns pacientes dos estudos citados reduzissem ou até mesmo descontinuassem a medicação. O yoga, assim como outras terapias alternativas, é dificil de ser avaliada como terapia complementar no tratamento da artrite reumatóide. Mesmo com muitos estudos com resultados promissores, as evidências dos efeitos positivos do yoga em doenças como artrite reumatoide ainda são insuficientes. Assim, destaca-se a necessidade de mais estudos, com a determinação da intensidade, frequencia e tipo ideais de exercícios, além de estudos acerca das mudanças biológicas decorrentes do yoga, ou seja, em conjunto com a medicina convencional.

Instrutor: Renata Lima